Impulsionada pela localização estratégica do Porto do Lobito, pelo desenvolvimento do Corredor do Lobito e pela crescente diversificação da sua economia, ainda que dependente do petróleo, Angola está a consolidar-se como uma das principais portas de entrada de África para os mercados da Ásia-Pacífico, escreve a renomada publicação ‘The Diplomat’ num longo artigo de análise intitulado ‘Angola is Emerging as One of Africa’s Most Important Gateways to the Asia-Pacific’ (Angola afirma-se como uma das mais importantes portas de entrada da África para a Ásia-Pacífico, tradução livre).
No texto, Angola apresenta-se como um país com potencial para assumir um papel cada vez mais relevante nas cadeias globais de abastecimento, ligando os recursos minerais e energéticos africanos aos grandes centros industriais e tecnológicos asiáticos.
Situado na costa ocidental africana, o Lobito tornou-se um dos principais pólos portuários e industriais de Angola. A cidade alberga o segundo maior porto do país, depois do de Luanda, e constitui o ponto de partida do Corredor do Lobito, uma infra-estrutura considerada estratégica para o escoamento de minerais provenientes do interior do continente.
A linha ferroviária de Benguela liga o Lobito à República Democrática do Congo (RDC) e à Zâmbia, permitindo transportar minerais críticos, como cobre e cobalto, para os mercados internacionais. Estes recursos são fundamentais para a produção de baterias, equipamentos electrónicos, tecnologias de baixo carbono e sistemas de armazenamento de energia.
Durante décadas, a economia angolana esteve essencialmente assente nas exportações de petróleo. A queda dos preços internacionais do crude, em 2014, provocou uma forte deterioração das receitas externas e expôs a vulnerabilidade de um modelo económico excessivamente dependente dos hidrocarbonetos.
Desde então, Luanda tem procurado diversificar a economia, apostando na agricultura, indústria, logística, mineração e transformação de matérias-primas.
A melhoria da posição financeira do país também tem contribuído para reforçar a confiança dos investidores. Segundo a análise da ‘The Diplomat’, Angola reduziu de forma significativa a sua dívida com a China, que chegou a atingir cerca de 45 mil milhões de dólares, situando-se actualmente em aproximadamente 12 mil milhões de dólares.
O país tem procurado igualmente encontrar mecanismos inovadores para gerir a dívida e, simultaneamente, financiar o desenvolvimento. Um dos exemplos citados é o acordo de conversão de dívida em investimento na educação, celebrado com o Banco Mundial através da Agência Multilateral de Garantia de Investimentos.
O acordo, avaliado em 400 milhões de dólares, prevê que parte dos encargos financeiros seja convertida em investimentos no sector da educação, com programas destinados a melhorar o acesso das raparigas à escola, desenvolver o capital humano e ampliar as oportunidades educacionais em todo o país.
Corredor do Lobito aproxima Angola da Ásia
É, contudo, o Corredor do Lobito que poderá desempenhar o papel mais importante na aproximação de Angola aos mercados asiáticos.
A infra-estrutura permite estabelecer uma ligação mais eficiente entre as zonas mineiras da África Central e os mercados internacionais, criando uma alternativa para o transporte de matérias-primas essenciais à transição energética e à indústria tecnológica.
Para países asiáticos interessados em diversificar as suas fontes de fornecimento de minerais críticos, o corredor pode representar uma importante porta de acesso aos recursos africanos.
A expansão das relações comerciais de Angola com países como o Vietname e a Coreia do Sul enquadra-se nesta nova dinâmica. O Vietname, em particular, tem manifestado interesse em aprofundar a cooperação económica com Luanda e em utilizar Angola como uma plataforma de ligação aos mercados africanos, enquanto Angola poderá beneficiar do acesso às cadeias de comércio e produção da ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático, sigla em inglês).
A China mantém igualmente uma posição de destaque nas relações económicas de Angola, sobretudo no sector petrolífero. Entretanto, novos parceiros asiáticos começam a ganhar espaço, acompanhando a necessidade de diversificação das relações comerciais e das fontes de energia e matérias-primas.
Petróleo continua dominante, mas gás e indústria ganham espaço
Apesar da diversificação em curso, os hidrocarbonetos continuam a representar uma parcela significativa da economia angolana. O gás natural, porém, está a assumir uma importância crescente como fonte de energia para a produção eléctrica e para o desenvolvimento industrial.
Angola está também a apostar no aumento da capacidade de transformação interna dos seus recursos. A Sonangol tem planos para ampliar a capacidade de refinação, incluindo a construção de uma grande refinaria na região do Lobito.
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O reforço da capacidade nacional de refinação poderá reduzir a dependência das importações de combustíveis, criar empregos especializados e estimular o desenvolvimento de uma base industrial mais robusta.
A produção de fertilizantes constitui outra área com potencial. Os investimentos previstos no complexo de amoníaco e ureia poderão permitir a produção de milhares de toneladas de fertilizantes por dia a partir de 2027, contribuindo simultaneamente para a industrialização e para o desenvolvimento da agricultura.
A energia hidroeléctrica constitui igualmente uma das principais vantagens de Angola. Os seus grandes rios e barragens oferecem capacidade significativa de produção de electricidade, um factor essencial para sustentar a industrialização e atrair investimentos em sectores com elevado consumo energético.
Uma nova centralidade económica
A transformação de Angola poderá ter consequências que ultrapassam as suas fronteiras. Um país com melhores infra-estruturas, maior capacidade energética e ligações comerciais mais eficientes poderá contribuir para dinamizar as trocas comerciais na África Austral e Central.
O Corredor do Lobito assume, neste contexto, uma importância que vai muito além do transporte de minerais. A sua expansão poderá estimular investimentos ao longo de toda a cadeia logística, desde a extracção e transformação de matérias-primas até ao transporte, armazenamento e exportação.
Para a Ásia-Pacífico, Angola poderá tornar-se uma ligação estratégica entre os recursos naturais africanos e as indústrias asiáticas de manufactura, tecnologia, energia e bens de consumo.
A aposta na transparência, no reforço das instituições e na promoção do investimento privado tem também sido apresentada pelo Governo como parte da estratégia para tornar o país mais atractivo ao capital estrangeiro.
A Agência de Investimento Privado e Promoção das Exportações tem recebido propostas de investimento em áreas como agricultura, indústria, logística e turismo, sinalizando um interesse crescente por uma economia angolana menos dependente do petróleo.
Ainda assim, os desafios permanecem consideráveis. A diversificação de uma economia construída durante décadas em torno do petróleo será um processo prolongado. A criação de instituições sólidas, capazes de garantir maior previsibilidade aos investidores, exigirá continuidade das reformas e estabilidade das políticas económicas.
Ainda de acordo com a ‘The Diplomat’, para Angola, o grande desafio será transformar a sua localização geográfica, os recursos minerais, o potencial energético e as infra-estruturas em crescimento económico sustentável.
Para os países da Ásia-Pacífico, a evolução angolana poderá representar uma oportunidade para diversificar cadeias de abastecimento, garantir acesso a recursos estratégicos e reforçar a presença económica em África.
O Corredor do Lobito poderá, assim, transformar-se numa das principais peças dessa nova arquitectura comercial, colocando Angola numa posição privilegiada entre o Atlântico, o continente africano e os grandes mercados da Ásia-Pacífico.



